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Isabel Saldanha – ampliar o coração e o espírito

É difícil falar da Isabel... há tanta coisa interessante para dizer, que às tantas não sabemos por onde começar. É uma mulher feliz, irrequieta, que gosta de viver, e isso nota-se em cada palavra que escreve e em cada olhar que capta com a sua máquina fotográfica. Há muito que seguimos o seu trabalho e tínhamos perguntas guardadas para lhe fazer, só à espera da oportunidade. Ela surgiu e este é o resultado. 

Ao contrário do que se pode pensar, o primeiro amor da Isabel é a escrita. A fotografia surgiu depois da maternidade, quando precisava de uma forma de expressão e não tinha tempo para se dedicar às palavras. Disse-nos que “há muita paixão que vem da necessidade, nem tudo é combustão espontânea”, e ainda bem que assim é. Aqui na HomeLovers Mag, achamos que o mundo precisa de conhecer o trabalho da Isabel e os seus mil projectos, que se encavalitam em catadupa. Não temos espaço para falar de todos, mas queremos destacar o mais recente – o Gang do Pé Preto, que criou ombro a ombro com as suas “loiras” (as duas filhas de 8 e 12 anos) e a Marta d’Orey. Juntas, desbravam caminhos, enfrentam a aventura de peito aberto, exploram novas rotas que a seguir passam para o papel, avaliando os lugares por onde passam consoante o significado emocional, cultural e até gastronómico que deixam nelas. E dão pés pretos, em vez de estrelas. 🙂

Falámos com a Isabel sobre as viagens, o seu trabalho, as suas filhas e os tempos que passou em Alfama. Venham conhecê-la um pouco melhor. Podem ir seguindo tudo o que faz acontecer aqui e aqui.

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Viajas bastante com as tuas filhas e de certeza que isso tem sido essencial para o crescimento da Caetana e da Camila. Consegues escolher a viagem que vos tenha marcado mais e explicar-nos porquê?

A viagem foi seguramente a de São Tomé e Príncipe. Sei que muitos pais vibram com a ideia de levarem as crianças à Disney. Não tenho nada contra. Foram com o pai. Para elas prefiro destinos que as desafiem e as coloquem  de frente para o mundo. As nossas crianças já vivem numa bolha de conforto é preciso saber quebrá-la. Para alargar o coração e o espírito temos de lhes dar contraste. Tinham 3 e 6 anos, regressaram há 2 anos, com 10 e 7. Em São Tomé, sem qualquer lição premeditada, elas crescem é só deixá-las ser crianças com outras crianças.   

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Viajar é muito bom, mas voltar para casa pode ser ainda melhor. Se tivesses de passar um dia em Lisboa com alguém que nunca estivesse cá estado, onde o levarias?

A Alfama, o meu bairro. Levaria certamente ao Castelo de São Jorge e a um fondue em Porto Brandão, com travessia de cacheiro a partir de Belém.

Dos tempos em que viveste em Alfama, de que sentes mais saudades?

Do aconchego. Adoro quase tudo naquele bairro, mas há um aspecto muito particular em relação a outros bairros de Lisboa: é o único que está entalado entre o Castelo e o rio. Dois pólos de soberania e popularidade. É um bairro onde me sinto em casa. Está muito diferente com a recuperação urbanística e o arrendamento a estrangeiros, mas o labirinto está lá. Pode vender-se pedra, mas não se vende a alma. Saudades enormes tenho dos tempos em que ia comprar carcaças com as miúdas, em que saia à noite e ouvíamos fado pelas ruas nas noites quentes de Junho, do pré-Santos, quando o bairro fica frenético nos preparativos e a sua vaidade vem toda ao de cima.

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Adoramos ler os teus textos, os pequenos e os grandes. Neste texto, dizes que “Ser mulher é bem mais exigente que ser homem”. Para ti, quais são os grandes desafios de ser mulher e educar duas filhas?

O maior desafio de ser mulher é a insónia permanente da nossa condição. Por muito que se tenha evoluído, uma mulher está sempre a lutar por qualquer coisa. Não trocava de género por nada neste mundo. Acho as mulheres, seres complexos e extraordinários, sinto que a matéria humana de uma mulher é trabalhada em multidimensões. É cansativo, mas muito saboroso. Educar duas miúdas é o meu maior desafio, quero que sejam as melhores embaixadoras do feminino e que percebam que podem ser tudo o que quiserem, basta sonhar e trabalhar em igual proporção. E que nunca dependam do vício das paixões amorosas para ganhos de autoridade. Não gosto de miúdas piegas, adoro mulheres sensíveis.

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Há uma grande intensidade no teu trabalho, tanto na fotografia como na escrita. Onde vais buscar tanta inspiração?

Ao vinho (risos). À vida mesmo. Nasci muito acordada.

Sabemos que não gostas de ser “dona de coisas”, mas tens algum objecto favorito na tua casa?

Só os meus livros. Que não empresto. De resto, sou verdadeiramente desapegada das coisas.

A tua casa é também o teu escritório. Leste o nosso guia para sobreviver enquanto trabalha a partir de casa? Há algum conselho que queiras acrescentar?

Acho que cobriram todos os aspectos que considero pertinentes. A rotina de trabalho e o aproveitamento do tempo. Também acho importante sair de casa porque senão estamos sempre enfiados na gruta.

Tens-te dedicado a organizar diversos workshops de fotografia e escrita (e não só!). Qual é a parte mais interessante destes convívios?

As pessoas. As pessoas são sempre a parte mais interessante de tudo.

Podes falar-nos um pouco mais sobre o Gang do Pé Preto?

É um projecto que lancei antes de partir para a Índia. Uma das melhores coisas que fiz, e que junta o melhor que tenho e o melhor que sou: as minhas duas filhas da mãe, a Marta, destinos e viagens, as minhas palavras, as pessoas e a fotografia. É uma plataforma online e o que fazemos é substituir as tradicionais 5 estrelas, por cinco pés. Acreditamos que a melhor medida de curtição é o impacto emocional. Pegamos no mapa e escolhemos sítios para visitar. Valorizamos a experiência emocional à material, mas se as duas vierem no mesmo pacote: 5 pés. 

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Qual foi o último livro que leste e música que ouviste, que te fizeram sonhar?

David Grossman, Um cavalo entra num bar. Músicas: Sigur Rós, bandas sonoras que não atrapalham o curso da vida.

Já tinhas visitado a HomeLovers Mag? O que achaste do nosso blogue?

Faz sentido que não se foquem apenas na venda ou no arrendamento da casa, mas tudo o que circunda essa vivência. Uma casa é uma vida, um repositório de memórias, um ninho.  Gosto da vossa abordagem ecléctica e enriquecedora.

Fotografias: Isabel Saldanha

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